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"Apenas segui minha curiosidade"
Fonte: Revista Época
Notícia publicada em: 13/10/2009
Autor: Cristiane Segatto

A americana Carol Greider tinha 23 anos quando fez a descoberta que lhe rendeu na semana passada, aos 48, o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina, junto com Elizabeth Blackburn e Jack Szostak. Carol queria responder a uma pergunta básica e crucial: como os cromossomos conseguem se manter intactos a cada divisão celular. No dia de Natal de 1984, Carol descobriu a enzima telomerase. Ela reconstitui as pontas do cromossomo a cada divisão celular, o que impede que o DNA sofra danos. Essa descoberta foi fundamental para melhor compreender o processo de envelhecimento e o aparecimento de doenças como o câncer. Incentivadora dos investimentos em pesquisa básica, Carol não se diverte apenas fazendo ciência. Ela é triatleta. Todos os dias, nada, corre ou pedala.

QUEM É
Carol Greider tem 48 anos. Formou-se em biologia na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e seguiu carreira em bioquímica

O QUE FEZ
Descobriu a enzima telomerase em 1984 na Universidade da Califórnia, em Berkeley

O QUE FAZ
É professora do departamento de Biologia Molecular e Genética da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore


ÉPOCA – A senhora disse que a descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel foi motivada por pura curiosidade. Por que é importante investir nesse tipo de pesquisa básica?
Carol Greider –
Se fizermos apenas pesquisa orientada a algum alvo ou a alguma doença, podemos deixar de responder a perguntas fundamentais. É preciso investir na pesquisa orientada simplesmente pela curiosidade. Eu apenas segui minha curiosidade. É óbvio que a pesquisa que visa a aplicações práticas é necessária. Mas é preciso haver equilíbrio. Ou seja: precisamos investir nos dois tipos de pesquisa.


ÉPOCA – Atualmente são raras as pesquisas motivadas apenas pela curiosidade?
Carol –
Não são necessariamente raras, mas houve muito mais pesquisas focadas em doenças nos últimos anos que investimentos em ciência básica. Nossa descoberta sobre a telomerase demonstra que tentar decifrar princípios básicos pode nos fazer entender muito mais sobre as doenças.


ÉPOCA – A senhora costuma dizer que nossa compreensão sobre como o mundo funciona é fragmentária e incompleta. O que os cientistas devem fazer para superar esse problema?
Carol –
Devemos fazer o que fazemos todos os dias no laboratório: tentar entender como a natureza funciona. Fazer isso peça por peça e tentar montar o quebra-cabeça. Quando identificamos uma parte do quebra-cabeça, vamos para a próxima. Até conseguir chegar a uma versão mais completa.


ÉPOCA – A senhora tinha apenas 23 anos quando fez a descoberta que agora lhe rendeu o Prêmio Nobel. O que o ambiente que encontrou durante a graduação tinha de especial?
Carol –
Estava num lugar maravilhoso, na Universidade da Califórnia em Berkeley. Tinha ótimos colegas, muitos amigos e encontrei muita gente de cabeça aberta e de fácil interação. Era o ambiente perfeito para fazer o tipo de pergunta que eu queria fazer: entender como a célula funciona e apenas seguir minha curiosidade.


ÉPOCA – Seu trabalho foi orientado por Elizabeth Blackburn, que hoje divide o Nobel com a senhora e com Jack Szostak. Qual foi a importância de Elizabeth em sua carreira?
Carol –
Elizabeth foi a primeira pessoa com quem trabalhei. Foi ela quem me iniciou na pesquisa sobre os telômeros. Tínhamos uma ótima relação de trabalho. Conversávamos todos os dias e dividíamos informações. Trabalhar com ela sempre foi muito divertido. Essa parceria nos fazia atingir os objetivos da pesquisa muito mais rapidamente. Ainda nos vemos algumas vezes por ano. Nós nos encontramos em conferências e saímos para jantar. É sempre muito bom poder conversar com ela.


ÉPOCA – Qual foi o melhor conselho que ela lhe deu?
Carol –
Recebi muitos conselhos de Elizabeth. Um dos que me lembro ela me deu quando eu já havia deixado o laboratório comandado por ela. Eu era uma cientista independente. Já tinha minha família e estava dividida entre os filhos e a carreira. É o dilema de todas as mulheres cientistas e também de outras profissionais. Elizabeth me disse para não abrir mão de ter ajuda em casa porque eu não conseguiria fazer as duas coisas sozinha. E também me disse para não deixar de dar atenção a minha família.


"O importante para todo profissional é seguir suas paixões.
Vou dar todo o apoio para que meus filhos sigam as deles"


ÉPOCA – A senhora imaginava em 1984 que sua pesquisa poderia trazer importantes respostas sobre o envelhecimento e sobre o desenvolvimento do câncer?
Carol –
Não tínhamos a mínima ideia, naquele momento, de que aquela pesquisa poderia ter alguma aplicação. Sabíamos apenas que estávamos estudando um mecanismo muito importante para a célula e que isso poderia ter implicações no futuro. Não sabíamos se a implicação seria no câncer ou em qualquer outra coisa. Tínhamos apenas a confiança de que estávamos diante de uma resposta fundamental que poderia ter desdobramentos.


ÉPOCA – Como a senhora se sente hoje ao observar que seu trabalho pode contribuir de forma efetiva para a melhoria das condições de vida das pessoas?
Carol –
É muito gratificante perceber que aquela descoberta pode levar a terapias para tratar doenças relacionadas com os telômeros, como é o caso do câncer.


ÉPOCA – A senhora acredita que algum dia os cientistas vão anunciar a cura do câncer?
Carol –
Câncer não é uma única doença. Há muitos tipos de câncer. Dentro de um mesmo tipo de câncer existem ainda muitas diferenças no comportamento celular. O que temos visto é que já é possível ter sucesso no tratamento de muitos tipos de câncer. Espero que a pesquisa sobre os telômeros possa ser aplicada a uma ou duas formas de câncer. Mas não acredito que servirá para curar todas as formas da doença.


ÉPOCA – Se a senhora pudesse mudar seus telômeros e viver para sempre, faria isso?
Carol –
Não acredito que uma alteração nos telômeros faria alguém viver para sempre. Há vários fatores que determinam quanto tempo uma pessoa vai viver. O encurtamento dos telômeros tem um importante papel no desenvolvimento de doenças relacionadas ao envelhecimento. Seria muito gratificante poder tratar pessoas que sofrem dessas doenças.


ÉPOCA – Mas a senhora gostaria de viver para sempre?
Carol –
Não gostaria. Prolongar a vida por tempo indeterminado poderia tornar insuportável nossa existência na Terra. De qualquer forma, essa é uma questão para a ficção científica. Não para mim.


ÉPOCA – Qual é a melhor parte de ser cientista?
Carol –
É o desafio de montar um quebra-cabeça que ninguém conseguiu montar antes. Isso é muito excitante.


ÉPOCA – E a pior parte?
Carol –
É ter de se preocupar com o financiamento de pesquisas.


ÉPOCA – Por que decidiu ser cientista?
Carol –
Estudei biologia na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Foi ali que percebi que minha paixão era o laboratório.

ÉPOCA – A senhora gostaria de que seus filhos seguissem a mesma carreira?
Carol –
Tenho dois filhos. Charles tem 13 anos. Tenho também uma menina, Gwendolyn, de 9. Ambos gostam de ciência, mas eu acho que ainda é cedo para pensar na carreira que vão seguir. O mais importante é que as pessoas sigam suas paixões. Meus filhos saberão quais sãos as paixões deles quando forem um pouco mais velhos. Aí vou dar todo o apoio para que eles possam segui-las.

 

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