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Artigo: Um médico muito especial
Fonte: Estado de Minas - Belo Horizonte
Notícia publicada em: 04/06/2009
Autor: José Guerra Lages

Embora apenas 25% da população brasileira tenha plano de saúde, a saúde suplementar exerce importante papel na escolha da especialidade pelos jovens médicos em todo o país. A partir do quarto ano, é natural que os estudantes avaliem suas expectativas em relação à profissão, analisando suas aptidões e possibilidades de rendimento. Eles sonham com a medicina suplementar e, por meio de relacionamentos, ficam sabendo que a remuneração se baseia no pagamento pró-labore de consultas e procedimentos realizados em pacientes encaminhados por colegas ou autogerados. Todos têm a ilusão de que serão credenciados pelas operadoras e terão muitos clientes. Pelas mesmas fontes, os estudantes têm conhecimento de que os rendimentos auferidos pelo pediatra se referem exclusivamente ao valor da consulta

Além da necessidade de ser um médico com amplo conhecimento científico, abrangendo todas as especialidades, é indispensável que ele seja paciente, que tenha uma vocação especial para servir e saiba que a clínica exigirá dele uma grande disponibilidade de tempo. No atendimento à criança, além de anamnese minuciosa, é sempre realizado exame físico completo, independentemente da gravidade da doença, e a assistência não se limita ao horário da consulta, mas na supervisão e acompanhamento da sua evolução, por meio de revisões sucessivas e contatos telefônicos com os familiares. Já na puericultura, o trabalho é ainda maior.

O pediatra não se atém ao exame da criança, mas se inteira das relações interpessoais, da situação econômico-financeira do casal e de todos os aspectos que possam interferir no cuidado e educação, transmitindo-lhes conceitos e orientação para a busca de conhecimentos e solução de questões que possam interferir no desenvolvimento emocional e psicomotor da criança. Perspicaz, o estudante verifica que a grande maioria dos pediatras, apesar do extraordinário valor de seu trabalho auferem baixa remuneração. A consequência é a extinção da residência em pediatria em grande número de hospitais.

Há falta de candidatos, e os que optam por essa especialidade são, em sua maioria, mulheres. Elas, apesar de se destacar como excelentes profissionais, têm sob sua responsabilidade uma dupla jornada – como mãe, mulher, atividades no lar etc. –, dificultando o trabalho no período noturno, aos sábados, domingos e feriados. Um agravante: o pediatra, por sua formação e visão abrangente e dedicação, é um dos profissionais mais requisitados para trabalho em setores administrativos: supervisores, auditores e gestores de serviços de saúde.

A médio prazo, a situação poderá se tornar muito grave, em função do pequeno número de pediatras, exigindo uma profunda e imediata análise da questão pelas entidades representativas da categoria médica, pelos gestores da saúde, tanto municipal como estadual, pelas operadoras de planos de saúde e faculdades de medicina. O pilar da questão se baseia na necessidade de uma remuneração diferenciada para os pediatras que continuam em seus consultórios imbuídos do desejo de persistir como clínicos gerais da criança, prestando-lhes assistência integral, contribuindo com as famílias e com a sociedade para formação de cidadãos íntegros, úteis e felizes.


José Guerra Lages - Médico pediatra, ex-presidente da Associação Médica de Minas Gerais

 

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