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Mitos e verdades sobre o glúten
Fonte: Jornal do Commercio
Notícia publicada em: 25/04/2008
Autor: Indefinido

Miriam Francisca da Silva, de 55 anos, nasceu de novo. Foi assim que a administradora aposentada começou a contar sua história. Há apenas oito anos, ela descobriu que era portadora da doença celíaca - muito perigosa, fácil de ser tratada, mas que muitas pessoas desconhecem. Esse mal é genético, pode ou não apresentar sintomas e causar uma série de doenças, que podem matar. Tudo isso causado por intolerância a uma proteína que muitos já ouviram falar, mas que poucos realmente conhecem: o glúten. O glúten é encontrado em muitos cereais, como o trigo, aveia, centeio, cevada e malte. Essa proteína é responsável pela elasticidade da massa de farinha e faz com que alimentos como o pão fiquem macios. Em longo prazo, danifica as vilosidades da mucosa intestinal de quem tem propensão a ser celíaco, causando a má absorção de todos os outros nutrientes. A doença celíaca não tem cura, para tratá-la o indivíduo deve apenas tirar o glúten da sua alimentação. Com o tempo, o intestino se regenera e volta ao normal. A gravidade do problema se dá porque muitas pessoas têm essa propensão e simplesmente não sabem, ou seja, são atacadas silenciosamente.

O gastropediatra José César Junqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que "o glúten só faz mal a quem tem propensão a desenvolver a doença celíaca". O que todos devem atentar é para o fato de a doença celíaca ser silenciosa e por, às vezes, não ter sintoma. Quando é descoberta, geralmente, um problema mais grave, como câncer, já foi desenvolvido. Em 1998, quando se aposentou, Miriam resolveu cuidar mais de si mesma e se alimentar melhor. Ela sempre sentiu azia. Comia torradas e chá, considerados leves e mesmo assim continuava a sentir uma azia muito forte, a perder peso, ter diarréia constante e não entendia o motivo disso. Depois de muitos exames, finalmente descobriu que era celíaca. "Para mim, foi um alívio, porque estava achando que tinha Aids ou câncer. Eu perdi um irmão há três meses. Ele estava com câncer no intestino e eu desconfio que também era celíaco e não sabia."

A nutricionista das Casas Pedro, rede de produtos naturais e que vende alimentos que não contêm glúten, Ana Paula Rocha afirma que os celíacos devem ter muito cuidado porque há outros elementos associados ao glúten que as pessoas desconhecem. "É importante que o paciente tenha muito cuidado, pois em alguns casos, o glúten está associado a outro nome. Por exemplo, no trigo é a gliadina, no centeio é a sacalina, na cevada é a hordeína e na aveia, avenina", afirma Ana Paula. Miriam concorda com a nutricionista. Segundo ela, é necessário ter cuidado sempre. No supermercado, nas lojas de produtos naturais, restaurantes e até quando se sai com os amigos para que não haja possibilidade da contaminação cruzada dos alimentos. "As pessoas não têm conhecimento sobre o assunto, então temos que estar sempre atentos. Uma vez, fui comer bobó de camarão e me disseram que não tinha glúten. Quando fui ver, o bobó estava dentro de uma panqueca, e como a panqueca era empanada, não pude comer, pois a farinha da panqueca juntaria com o bobó e eu passaria mal por contaminação cruzada", conta Miriam.

Por sentir que as pessoas não conheciam o assunto e para ajudar outros celíacos, Miriam e outras mulheres que passam pelo mesmo problema decidiram criar a Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra-RJ), uma entidade não-governamental que busca atender e ajudar as pessoas a terem uma vida normal, orientando e captando recursos para que os celíacos tenham cuidados essenciais na sua alimentação. Regina Barreto descobriu há dois anos que seu filho Marcelo, hoje com quatro, era portador da doença celíaca. "Foi um choque, meu chão caiu naquela hora." Ela conheceu um grupo de portadores da doença e também ajudou a fundar a associação. Engajada e preocupada com a saúde do seu filho, a dona-de-casa está sempre criando receitas que não contenham glúten para satisfazer a criança. Por meio da associação, o grupo até conseguiu aprovar um projeto de lei estadual de apoio ao celíaco.

Os alimentos sem glúten são mais caros do que o normal e não são todas as pessoas que têm condições financeiras para manter esse tipo de alimentação diferenciada. Além disso, os exames que devem ser feitos para diagnosticar a doença também são muito caros. "Foi uma vitória, mas ainda precisamos de apoio. Não são todas as pessoas que se interessam em nos ajudar. Por desconhecerem a doença, elas não nos levam a sério", afirma Regina. A doença celíaca geralmente se desenvolve em mulheres e pode ser descoberta quando a criança tem entre um e três anos de idade. Segundo o gastropediatra Junqueira, a forma clássica da doença se manifesta através da diarréia, perda de peso ou falta de crescimento nas crianças e anemia constante. A forma não clássica da doença apresenta sintomas como dores abdominais, intolerância à lactose e até mesmo depressão.

O fator agravante da doença é que ela pode não apresentar sintoma nenhum. "Às vezes o celíaco não descobre que tem a doença por existir a forma assintomática dela. Quando não se tem sintoma, ninguém pensa que está doente", afirma o médico. Uma vez que o celíaco não se cuida, ele pode desenvolver câncer de intestino e jejunite ulcerativa (formação de úlcera no intestino delgado). Para descobrir se uma pessoa é celíaca ou não, deve-se fazer um exame detalhado de sangue. "Porém, é importante ressaltar que esse exame não é previsto na grade de exames de rotina do Sistema Único de Saúde (SUS) e, por isso, alguns convênios de saúde também não pagam por ele. Então o paciente tem que pagar por fora. E esses exames existem há mais de 20 anos", detalha o médico. A estagiária de nutrição das Casas Pedro Ilô Antunes faz um trabalho de conscientização dos problemas que o glúten pode causar nos celíacos. Ela faz seu trabalho de conclusão de curso baseado no assunto e em parceria com a Acelbra de Florianópolis desenvolve uma farinha que possa substituir a de trigo.

Ilô atenta para um dado agravante: "No início de 2007, um estudo apresentado pela Unesp mostrou que uma em cada 214 pessoas era celíaca. Baseado nessa média, estima-se que no Brasil existam mais de 4 milhões de portadores da doença celíaca e a grande maioria nem desconfia". A empresária Alba Esteves, de 35 anos, descobriu que era celíaca por acaso. Há quatro anos, ela começou a reter muito líquido e nenhum médico conseguia descobrir o motivo dessa retenção. Um dia, conversando com uma amiga, que também era celíaca, ela resolveu fazer por conta própria uma desintoxicação de glúten. "No começo achei que não fosse conseguir, pois comecei a perceber que minha alimentação diária era basicamente industrializada e recheada da tal proteína. Ou seja, eu era uma consumidora voraz de glúten e nunca havia me dado conta disso." Alba mudou a alimentação e passou a substituir os alimentos. "Substituí o pão por um sem glúten ou tapioca, troquei a cerveja pela caipirinha e passei a comer muito mais frutas, legumes e verduras, e menos produtos industrializados.

Comecei a ver que não era tão difícil, pois hoje o mercado oferece muitas opções de alimentos naturais e sem glúten, como macarrão, pães, biscoitos, chocolates." Alguns restaurantes já oferecem no seu cardápio alimentos que não contenham glúten, mas são poucos. A jornalista Tânia Lordêllo, de 35 anos, adora sair para comer, mas reclama da falta de informação nos restaurantes quando o assunto é glúten. "É raro um garçom saber informar se aquele prato contém ou não glúten. As pessoas realmente desconhecem esse assunto." Para os celíacos, há muitas opções para substituição dos alimentos como farinha de arroz, amido de milho, farinha de milho, fubá, farinha de mandioca, polvilho e soja.
 

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