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País convive com dengue há 22 anos
Fonte: O Estado de S. Paulo
Notícia publicada em: 06/04/2008
Autor: Emilio Sant’anna e T

Especialistas reunidos no Congresso Brasileiro de Medicina Tropical, em São Paulo, em 1985, já alertavam para o perigo que rondava o País. O carnaval estava chegando e a combinação de uma cidade como o Rio, infestada de Aedes aegypti, com a circulação do sorotipo 1 do vírus da dengue em países da América Latina, como a Guatemala, colocava a comunidade médica em alerta. No ano seguinte, a dengue chegou de vez ao Brasil. Anos antes, em 1976, Salvador já havia tido um foco da doença. Mas, no Rio - dez anos depois - o problema assumiu proporções maiores, quando mais de mil casos foram registrados.

De lá para cá, praticamente todos os anos os casos não pararam de acontecer e de bater recordes. Em 2002, foram detectados 288.245 casos no Estado, dos quais cerca de 138 mil no município do Rio. Neste ano, 57.010 casos já foram confirmados no Estado e 37.908 na capital. Até sexta, 67 pessoas morreram em conseqüência da dengue.

Hoje, a cidade é considerada área endêmica da doença. Pior, ela veio para ficar. “Grande parte dos adultos já teve dengue. Assim, as crianças que nasceram principalmente após a década de 1990 já têm os anticorpos dos sorotipos 1 e 2, o que torna a questão mais grave, pois se contraírem a doença, terão a forma hemorrágica”, explica o infectologista Marcos Boulos, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

A preocupação agora é ter pediatras capazes de identificar e tratar a doença, cada vez mais perigosa para as crianças. “O pediatra tem de saber tratar, pois a dengue veio para não ir embora”, afirma. Segundo Boulos, dificilmente será possível o País livrar-se do mosquito vetor da dengue. “Em Miami, existe Aedes circulando, mas não há casos de dengue”, diz. “Aqui a doença está associada a um problema social.”

VACINA

Apesar de ser considerada pelos especialistas a melhor solução para evitar a dengue e de haver iniciativas em diversas partes do mundo, ainda não há previsão concreta para a comercialização de uma vacina contra a doença. O tema volta à tona com força no País, diante da epidemia de dengue pela qual passa o Rio e pela assumida dificuldade de conter o mosquito transmissor - tanto por causa da ineficiência dos programas de prevenção dos governos, como por responsabilidade da população que ainda tem dificuldade de fazer a sua parte.

Há institutos que prevêem ter a vacina em até cinco anos, mas a data é questionada pelo vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos) da Fiocruz, Ricardo Galler. “Todas as etapas são muito demoradas e complicadas e não se pode criar uma falsa expectativa na população. Sabemos que em uma das etapas dos testes de uma empresa, anos atrás, a vacina provocou dengue 3 em voluntários. Por isso, tem-se de ter cuidado com prazos. Não se pode queimar etapas”, considerou.


Galler informou que a Fiocruz está atrás de outros laboratórios e ainda vai testar a vacina em macacos, provavelmente no ano que vem, e em humanos, talvez em 2011. “A nossa vacina, pelo menos por enquanto, está sendo produzida para proteger apenas contra os vírus 1, 2 e 3. Não podemos trabalhar com o vírus 4, porque ele não chegou ao País. É uma questão de biossegurança. Não podemos e não queremos mexer com isso.” O pesquisador é categórico, no entanto, ao afirmar que o combate ao mosquito não pode ser deixado de lado, nem pela população nem pelos governos. “Temos um problema de crescimento demográfico grande, de infra-estrutura, de saneamento, e o mosquito é urbano. Não se pode deixar de lado a prevenção.”

O Instituto Internacional de Vacinas, com sede na Coréia, tem um departamento de Incentivo à Vacina Pediátrica contra a Dengue (PDVI). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de cem países sofrem com a doença, o que coloca em risco cerca de 2,5 bilhões de pessoas. “A dengue é uma doença difícil por diversas razões: é causada por quatro tipos de vírus, é complicado controlar a proliferação do mosquito e não há remédios para o tratamento da infecção. A melhor forma para tratar a doença é ter a vacina efetiva e segura. Há várias iniciativas em diferentes partes do mundo como as da inglesa Glaxo, da francesa Sanofi Pasteur e, no Brasil, do Instituto Butantã e da Fiocruz, mas os testes de segurança e eficiência não foram feitos por nenhum deles”, disse ao Estado o diretor do programa, Richard Mahoney.

O PDVI, que recebe financiamentos da Fundação Bill and Melinda Gates, está trabalhando com o Butantã. Em outubro do ano passado, o instituto informou que começaria a testar, este ano, a vacina da dengue em humanos e que a expectativa seria de que, em cinco anos, ela estivesse disponível. Os testes são feitos em parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos EUA e demonstram, segundo informações, eficiência de 100% em macacos. O Butantã, no entanto, não deu informações sobre o tema.

Uma das preocupações em relação à vacina é que ela precisaria ser tetravalente - ter eficácia contra os quatro tipos de vírus. Já entre as vítimas da dengue, Diego Hypólito, o ginasta brasileiro bicampeão do mundo, pode ser mais uma delas. O atleta estava até ontem internado num hospital do Rio com sintomas da doença.
 

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