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Cicatrizes apagadas
Fonte: Correio Braziliense
Notícia publicada em: 20/01/2010
Autor: Márcia Neri

Técnica francesa de fisioterapia promete mais qualidade de vida aos pacientes por desativar nas células a memória de traumas que podem gerar disfunções no organismo. A terapia, porém, é complementar e não substitui os tratamentos convencionais

A pedagoga aposentada Iracema Ribeiro, 65 anos, é vítima de reumatismo. De cinco anos para cá, ela não conseguia dormir devido às dores que sentia no corpo. Apesar de tratar o transtorno com um reumatologista e se valer da hidroterapia para conter o desconforto, o organismo não vinha respondendo bem às medidas adotadas. A microfisioterapia, técnica praticada na França há mais de três décadas, trouxe o alívio dos sintomas e a qualidade de vida para Iracema. “No último domingo, fiz a terceira sessão, mas depois da primeira não sentia mais dor, voltei a ter um sono tranquilo e descobri os fatores que desencadearam a doença. Estou impressionada. Me sinto leve, como se não tivesse o problema”, relata.

A microfisioterapia consiste em localizar no corpo do paciente informações de situações ou traumas que foram vividos tanto física como emocionalmente e que organismo não conseguiu eliminar. Segundo o fisioterapeuta Afonso Salgado, que trouxe a técnica para o Brasil, essas restrições são marcas de eventos ocorridos ao longo da vida, que trouxeram algum sofrimento. São cicatrizes que não ficam apenas no cérebro. “`Tudo que acontece com a gente em nível tóxico, físico e emocional vai para o corpo, que guarda memórias e cria traços que atrapalham o funcionamento das células e podem gerar sintomas e disfunções. Os microfisioterapeutas são treinados para descobrir essas memórias e desativá-las”, explica Afonso.

O fisioterapeuta observa que as sequelas que ficam guardadas na mente são tratadas por psicólogos e psiquiatras, já a microfisioterapia cuida das cicatrizes do corpo. A técnica é baseada no estudo da embriologia. A primeira etapa da sessão é uma conversa com o paciente. Depois do bate-papo, são feitas averiguações de pressão e do estado físico da pessoa. “Em seguida, buscamos as memórias guardadas no corpo para desativá-las. Com toques leves, realizados com a ponta dos dedos, ajudamos o organismo a apagar as cicatrizes internas responsáveis pelas doenças. A técnica é tão apurada que precisamos as datas dos acontecimentos que marcaram negativamente a pessoa”, revela o profissional.

Segundo Rodrigo Rabbottini, fisioterapeuta que aplica o método em Brasília, as situações traumáticas geram reflexos no corpo, que nem sempre consegue eliminá-los. Ele observa que a microfisioterapia é um intrumento para a autocorreção das funções do organismo. O profissional que aplica a microfisioterapia é preparado para procurar no paciente regiões com perda de ritmo vital. Essa ausência é perceptível na superfície da pele. “Se não há ritmo, existe uma ‘cicatriz’ fonte de disfunções. É essa sensação que guia o fisioterapeuta na busca do caminho que a agressão percorreu no corpo para que ele ative o processo de autocura, que é nosso principal objetivo, independentemente do tempo em que a marca foi instalada”, diz.

São trabalhadas cerca de três ou quatro sessões intercaladas a cada 30 dias. Segundo os especialistas, reféns de problemas como depressão e doenças que causam dor crônica, como fibromialgia, distúrbios de sono e alergias, têm encontrado grande alento com a técnica francesa. “Patologias que a medicina tradicional tem dificuldade para resolver podem ser amenizadas e até curadas. Tenho uma paciente com fibromialgia, mal que pode ser resultado de perdas na infância. Os pais dessa mulher morreram em um acidente quando ela tinha 6 anos. Traumas emocionais nessa fase promovem perda de serotonina, que desencadeia depressão associada a problemas físicos. A microfisioterapia eliminou as manifestações da doença e promoveu o equilíbrio”, revela Afonso Salgado.

A novidade não pretende substituir a medicina tradicional. Ela é aplicada por fisioterapeutas ou médicos que estudam o método por dois anos e o indicam como uma terapia complementar ou preventiva. Os resultados animam os profissionais. As chances de melhora para quem sofre de enxaqueca, cólicas, herpes, alergias, depressão, síndrome do pânico, artrites e artroses são significativas. Porém, os especialistas reconhecem a dificuldade em eliminar danos no sistema auditivo e aliviar dores agudas. “Existem áreas que precisamos e vamos progredir. No entanto, temos ajudado bastante no tratamento de câncer porque conseguimos eliminar os efeitos colaterais da radio e da quimioterapia. As únicas ressalvas são as gestantes e os doentes terminais que não têm força para reagir``, afirma Afonso.

Dores
A fisioterapeuta Liana Mayara Caland, 29 anos, é uma paciente. Ela sofria de fortes dores nas costas, problema que comprometia seu dia a dia há alguns anos. “Como sou da área, sempre me identifiquei com técnicas corporais, mas nunca consegui me livrar dessa dor. A microfisioterapia me chamou a atenção pelo estímulo que promove no corpo para que ele reaja ao mal”, diz. Na primeira sessão, o microfisioterapeuta trabalhou diversos pontos do organismo sem tocar as costas. “No dia seguinte, não sentia mais dor. Na conversa com o profissional que aplicou a técnica em mim, soube que minha lombalgia era resultado de traumas vividos na infância que ficaram registrados em meu corpo e continuavam repercurtindo. A dor ficou no passado, hoje sou outra pessoa”, revela.

Pacientes com quadro de dor são realmente os que mais recorrem ao método, mas a técnica tem alcançado resultados em mulheres com dificuldade de engravidar e esportistas que desejam prevenir danos físicos. O fisioterapeuta Rodrigo Rabbottini lembra que o intervalo de um mês entre as sessões é necessário para que o corpo absorva os estímulos promovidos pelo toque do microfisioterapeuta e reaja. Mudanças no sono, vômito, alterações de humor e aumento do problema são comuns nos primeiros dias depois das sessões em alguns pacientes.

A microfisioterapia ainda é vista com desconfiança por médicos que não a conhecem. Na Europa, o método é autorizado pelos conselhos de fisioterapia e pelo governo de cada país. “No Brasil, estamos elaborando um documento que explica aos órgãos responsáveis os benefícios e o funcionamento da terapia”, acrescenta Afonso Salgado. O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito) informa que ainda não há regulamentação sobre o uso do método e que a assessoria técnico-normativa está elaborando material que tenha fundamentação e subsídios necessários para isso.


 

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